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Fazia pouco tempo que eu tinha começado a atuar como consultor quando peguei um projeto que parecia perfeito no papel. Empresa de médio porte, um bom histórico de indicação, uma demanda clara: ajudar a comunicar e consolidar novos valores organizacionais junto aos colaboradores. Eu e o time entramos animados. Era o tipo de trabalho que a gente tinha estudado pra fazer.

A gestora de RH do lado do cliente era competente e engajada. Isso, no começo, parecia uma vantagem. Ela conhecia a empresa por dentro, tinha opinião formada sobre o que funcionava com o time dela, queria participar de perto. Eu interpretei isso como sinal de que o projeto ia bem. Só fui perceber, meses depois, que tinha lido o sinal errado.

Aos poucos, a participação dela deixou de ser colaboração e virou direção. Ela começou a dizer quais dinâmicas usar, como conduzir, o que cortar da agenda. No começo eu cedia porque discordar parecia arriscar a relação. Depois eu cedia porque já tinha cedido tantas vezes que voltar atrás parecia inconsistência. Em algum momento eu me dei conta de que estava aplicando a metodologia dela, com o crachá da minha empresa.

Isso não aconteceu numa cena única, com um confronto claro que eu poderia apontar depois e dizer "foi ali que tudo mudou". Foi um desgaste em camadas. Cada concessão individual parecia pequena e razoável. Era só uma dinâmica trocada, só um horário ajustado, só uma sugestão aceita sem debate pra não parecer difícil. Só que a soma dessas pequenas concessões foi o que definiu o projeto inteiro. No fim, virou um dos trabalhos mais desgastantes que já conduzi, não pela complexidade do problema do cliente, mas pela falta de espaço pra resolver esse problema do jeito que a gente sabia resolver.

A pergunta que eu não fiz antes de começar

Reconstruindo essa história com o tempo, o erro não estava em nenhuma das concessões isoladas. Estava numa pergunta que eu nunca fiz no começo, quando ainda dava pra fazer sem custo nenhum: quem decide o quê aqui.

Parece óbvio escrito assim. Na prática, quase ninguém faz essa pergunta em voz alta no início de uma relação de trabalho. A gente assume que vai ficar claro sozinho, que o bom senso resolve, que não precisa formalizar o que "todo mundo sabe". E é exatamente essa suposição que abre a porta pra alguém preencher o vácuo com a própria régua, sem que isso pareça uma invasão da parte de quem preenche. Do lado da gestora, ela provavelmente nem via aquilo como interferência. Via como cuidado, como estar por dentro do que estava sendo feito com a equipe dela. O problema não era a intenção dela. Era que ninguém tinha combinado, antes, onde terminava o espaço dela e começava o meu.

Isso muda completamente como eu vejo esse tipo de conflito hoje. A maior parte do desgaste que vejo em relações de trabalho, seja entre sócios, entre consultor e cliente, entre líder e liderado, não nasce de má fé. Nasce de papel mal definido combinado com medo de ter a conversa que define o papel. E esse medo tem uma lógica interna que faz sentido no momento: "se eu impuser um limite agora, posso perder o cliente, posso parecer difícil, posso azedar uma relação que começou bem." O problema é que essa lógica troca um desconforto pequeno e imediato por um desgaste grande e prolongado. Você não evita o conflito adiando ele. Só troca um conflito claro, resolvido em cinco minutos de conversa direta, por um conflito difuso, que corrói por meses.

O que Covey chama de Vencer/Vencer ou Não Há Acordo

Tem um conceito no livro Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, de Stephen Covey, que eu só fui entender de verdade depois de viver esse tipo de situação algumas vezes. Covey descreve seis formas possíveis de qualquer negociação ou acordo terminar. A maioria das pessoas conhece só duas: Ganha/Perde, onde alguém sai na frente às custas do outro, e Perde/Ganha, onde alguém cede tudo pra manter a paz. É essa segunda que eu estava jogando sem perceber. Cada vez que eu aceitava uma imposição pra não criar atrito, eu estava, na prática, escolhendo Perde/Ganha e chamando isso de flexibilidade.

O ponto que me marcou é o que Covey chama de Vencer/Vencer ou Não Há Acordo. A ideia é simples e, ao mesmo tempo, contraintuitiva pra quem cresceu achando que fechar negócio é sempre melhor do que não fechar: se as duas partes não conseguem chegar a um acordo que sirva de verdade pras duas, o resultado mais maduro não é ceder, é não seguir em frente. Preservar a relação, mas sem fingir que aquilo é uma parceria quando na verdade é uma imposição disfarçada de acordo.

Isso pede clareza, antes de aceitar qualquer trabalho junto, sobre onde fica a linha abaixo da qual o acordo deixa de servir pras duas partes e vira só um jeito educado de uma parte perder. E pede coragem pra nomear essa linha em voz alta, no início, quando ainda custa pouco, em vez de descobrir ela na marra, meses depois, quando já custou muito. Colaboração de verdade nasce exatamente dessa clareza, não da ausência dela.

Onde isso deveria ter entrado na minha história

Se eu pudesse voltar naquele projeto, o momento certo pra essa conversa não era no meio da terceira dinâmica reescrita por imposição. Era na primeira reunião. Antes de qualquer contrato assinado, antes de qualquer entusiasmo com a oportunidade, eu deveria ter perguntado, com todas as letras: como a gente decide, juntos, quando surgir uma diferença de opinião sobre a metodologia. Quem tem a palavra final sobre como conduzir as dinâmicas. O que acontece se a gente discordar.

É uma pergunta que protege a relação antes dela precisar ser protegida, o contrário de hostilidade. Quando você faz isso no começo, com calma, sem estar sob pressão de um conflito já instalado, fica muito mais fácil chegar num Vencer/Vencer de verdade. As duas partes ainda estão de boa vontade, ainda querem que o outro lado saia satisfeito, ainda não acumularam ressentimento nenhum. É o momento mais barato pra negociar limites que existe. E é exatamente o momento que a maioria de nós pula, porque parece desnecessário formalizar algo que "com certeza vai dar certo".

O aprendizado que ficou

Depois desse projeto, mudei uma coisa simples e permanente em como começo qualquer trabalho novo, seja com cliente, com parceiro, com quem eu estou orientando. Antes de qualquer entusiasmo virar ação, eu paro e pergunto, literalmente com essas palavras: o que acontece se a gente discordar sobre como fazer isso. Quem decide o quê. Onde está o limite de cada um. Às vezes a resposta é simples e a conversa dura dois minutos. Às vezes a resposta revela, ainda na largada, que aquela relação não tem espaço pra autonomia nenhuma, e nesse caso é melhor descobrir isso antes de investir seis meses nela.

Isso vale muito além de projeto de consultoria. Vale pra quem está montando uma sociedade, pra quem está aceitando liderar um time que outra pessoa já geria, pra quem está começando qualquer relação onde duas pessoas vão precisar tomar decisão junta com regularidade. O impulso natural é focar no que anima, no potencial, na admiração inicial. E isso é ótimo, é o combustível de qualquer começo. Mas sem uma conversa honesta sobre limites logo no início, esse mesmo entusiasmo vira o motivo pelo qual você não vai conseguir dizer não depois, quando precisar.

Eu não troco o desconforto de uma pergunta direta no primeiro encontro pelo desgaste de meses tentando recuperar uma autonomia que eu mesmo deixei escapar aos poucos. Aprendi isso do jeito mais caro. E hoje é uma das primeiras coisas que trabalho com quem eu acompanho: a régua clara vem antes da crise, dizer não no meio dela já é remendo.

Onde você ainda não fez essa pergunta em voz alta, com alguém que importa pro seu trabalho?

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